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Ilha Comprida​

A partir de Cananéia, é possível visitar a praia do Boqueirão Sul, no município de Ilha Comprida, bastando atravessar de balsa o canal do Mar Pequeno.

Cananéia tem uma história rica e pouco divulgada. Há autores que a tem como já visitada em viagens pré-cabralinas. Contudo, acredita-se que o início seguro do povoado original é de 1502, data aceita como a do desembarque de um homem ilustre da alta cultura européia, que se tornou conhecido como o Bacharel de Cananéia.


Por conveniência religiosa e política, Mestre Cosme Fernandes, bacharel português, judeu convertido (cristão novo) foi desterrado e deixado em Cananéia, tornando-se o primeiro europeu a se estabelecer no Brasil.


Embora haja indícios de que o Bacharel poderia ter sido trazido numa viagem secreta feita por Bartolomeu Dias em 1499, aceita-se que a sentença tenha sido cumprida pela expedição comandada por Gonçalo Coelho, tendo como cartógrafo o florentino Amerigo Vespucci, que se tornou conhecido na História do Brasil como Américo Vespúcio. Essa expedição saiu de Portugal em 1501 e chegou aqui em 24 de janeiro de 1502, visando reivindicar e demarcar as terras recém descobertas para a coroa portuguesa.


Acredita-se que tenham chegado até a ilha do Cardoso, onde, por conta do seu tamanho e extensão, provavelmente pensaram estar em terras continentais. Assim, desembarcaram o Bacharel e chantaram, no lado nordeste da ilha, junto à barra, na ponta do Itacuruçá, um marco de pedra com as quinas portuguesas em alto relevo, encimadas pela cruz de Cristo, juntamente com 2 tenentes, paralelepípedos sem função específica, espécie de escoltas do marco principal. Vide foto anexa e comentários.


Na época do descobrimento o lugar chamava-se Marataiama, em tupi-guarani: mara = mar e taiama = terra, isto é, «lugar onde a terra encontra o mar».


Habitavam o lugar os índios Carió (Carichó ou Carijó) da nação guarani. Eles jamais haviam visto um navio tão grande, cheio de velas brancas, homens brancos vestidos, de fala macia e cabelos de fogo, ficaram deslumbrados e se referiam ao fato como mutupapaba, isto é, «coisa maravilhosa». Chamaram o marco de Itacoatiara (ita = pedra e cuatiara = risco, desenho, inscrição) ou Itacuruçá (ita = pedra e Curuçá = cruz).


Feito prisioneiro, de alguma forma o Bacharel conquistou a confiança dos selvícolas, vindo a unir-se com a filha do cacique Ariró. Esse fato, freqüente na época do descobrimento, resultava da associação pelos nativos da figura do homem branco com os deuses ou chamãs. Eram os caraíbas, mencionado pelo padre José de Anchieta: «Caraíba quer dizer coisa santa ou sobrenatural e, por esta causa puseram esse nome nos portugueses, logo que vieram, considerando-os uma coisa grande, do outro mundo, por terem vindo de tão longe sobre as águas».


No inverno de 1526, em Porto dos Patos (relativo a tribo dos índios Patos, da nação guarani) no litoral de Santa Catarina, após ouvirem narrativas sobre os tesouros do «rei branco», 32 homens desertaram da expedição de Don Rodrigo de Acuña.


Desses desertores, provavelmente 6 seis homens, fizeram uma longa jornada de cerca de 300 km para o norte até chegar em Cananéia, pois sabiam que o lugar era freqüentado por navegadores europeus, juntaram-se, então, ao Bacharel e ajudaram a povoar a terra.


Dois desses homens: Gonçalo da Costa e Francisco de Chavez, casaram-se com filhas do Bacharel. Francisco de Chavez tinha uma particularidade: era o único homem branco vivo que já estivera no império inca. Ele foi membro da fantástica expedição de Aleixo Garcia até os domínios do El Dorado.


Em 15 de janeiro de 1528, Diego Garcia, passando por Cananéia relata ter encontrado o «Bacharel de Cananéia» uma espécie de «rei branco» vivendo entre os índios com 6 mulheres, mais de 200 escravos e mais de mil guerreiros dispostos a lutar por ele, «… que vive ali faz bem 30 anos e tem muitos genros».


Este foi o quadro que em 1531 a expedição colonizadora de Martin Afonso de Souza encontrou na comunidade de Marataiama, como era chamada a antiga Cananéia, segundo consta no Diário de Navegação da Armada de Pêro Lopes, irmão de Martin Afonso e que durou cerca de 80 anos. O crescimento da comunidade, escassez de água potável e terras agricultáveis, obrigou a vila mudar-se para o lugar onde está atualmente.


Durante as três primeiras décadas após o descobrimento do Brasil, devido às notícias que corriam na Europa, houve uma corrida desenfreada em busca dos domínios do rei branco, El Dorado e da fantástica Potosi, que na língua quíchua quer dizer «montanha que troveja», feita inteiramente de prata e de onde saíram cerca de 6.000 m3 do metal.


Cananéia torna-se, então, à partir de 1502, um importante ponto de passagem de armadas, expedições, exploradores, aventureiros, piratas e corsários.


Para isso contribuíram a geografia em forma de abrigo natural para os navegadores, cujo melhor exemplo é a ilha do Bom Abrigo, as dádivas da natureza exuberante do lagamar: água doce, pesca, caça, frutas e lenha e a presença e liderança do misterioso Bacharel de Cananéia, Cosme Fernandes que sabia negociar os produtos da terra, o pau-brasil, informações e escravos.


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